quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Camilla pergunta: Segundona ou Segundinha?

jovem torcedora do Fluminense escreve, perguntando se é Segundona ou Segundinha? Dizendo não ter entendido bem na crônica anterior a minha história de Segundona e Segundinha. Sentiu-se ofendida.

Para boa entendedora meia história basta, mas em se tratando de uma jovem moribunda, digo, oriunda da aprovação automática, passo a repetir o assunto, colocando-o em destaque.
Primeiro não quis ofender o Fluminense, já torci por esse time quando era pequeno, mas, ainda que remota, havia a possibilidade de rebaixamento, agora não mais !

Mas Domingo trasado, 23/11, me chamou a atenção o jornal O Dia Baixada, a matéria esportiva dizendo, “Caxias rumo à Segundona”, em relação ao time do Duque de Caxias e na segunda-feira trasada, 24/11, o jornal Expresso trazendo em sua capa “... Alô, Alô Segundona”, em relação ao Vasco e o Jornal do Brasil nesse domingo, 30/11, trouxe em sua manchete: “Vasco diante do maior pesadelo. Time pode ir hoje para a Segundona”.

No futebol há outras divisões, mas as mais faladas são 3ª, 2ª e 1ª. Em ordem crescente. Fala-se então na gíria esportiva em Primeirona, Segundona...

A meu ver, assistiu razão ao jornalista do Jornal O Dia Baixada quando disse: “Caxias rumo à Segundona”, mas não assistiu razão aos dos jornais Expresso e Brasil quando disseram, “Alô, Alô Segundona” ou “Time pode ir hoje para a Segundona”, em relação ao Vasco.

Eis uma questão de ponto de vista: dois são os graus do substantivo, aumentativo e diminutivo. O aumentativo e diminutivo podem ser analíticos e sintéticos. O aumentativo sintético “Segundona” formou-se com o auxílio do sufixo ONA como em mulherona. O seu diminutivo sintético correspondente seria “Segundinha”, sufixo INHA como em filhinha.

Para o time do Duque de Caxias-RJ, Campinense-PB e Guarani-SP que estavam na Terceira Divisão, de fato, rumavam para a Segundona, estavam ascendendo, subindo, mas para o Vasco, Ipatinga, Portuguesa, Atlético-PR com risco de rebaixamento, cair da 1ª para a 2ª Divisão é “Segundinha”. Poderia seria ser que os jornalistas do Expresso e Brasil estivessem sendo irônicos, mas seria uma ironia limitada, pobre, a ironia retórica, romana. Essa história de dizer o contrário do que se está pensando. Há pessoas que pensam ser a ironia apenas isso. Não é.
Mas veja Camilla que a mesma Segunda Divisão (ou Segundona) pode ser ao mesmo tempo alegria para uns e tristeza para outros. Pode ser Segundona e Segundinha. Boa e má. Para quem sai da 3ª é alegria, para quem vem da 1ª, tristeza.

Por exemplo, do ponto de vista do Duque de Caxias é Segundona; do ponto de vista do Vasco é Segundinha. E para quem não gosta de futebol será sempre “Segundinha”; para certas igrejas depende da oferta: se a oferta for boa é “Segundona”, se for pequena é “Segundinha” e ainda vão orar, amaldiçoando para o time cair para a Terceirinha.

Camilla, minha filha, espero dessa crônica em diante você possa perceber os pontos de vista. A vida está cheia. Para reforçar conto esse fato ocorrido na Marinha do Brasil pelos anos 80:
Dois marinheiros, um catarinense, serviam na 1ª Divisão. Um foi agraciado pelo 1º tenente encarregado da Divisão com um posto superior de Cabo e o dinheiro dos atrasados deu para comprar a casa própria; o marinheiro catarinense - só porque tinha o rosto cheio de bexigas, em virtude da varíola, foi perseguido e mandando embora “a bem da disciplina”. O 1º tenente dizia que dava nervoso olhar para ele; que o marinheiro era muito feio, mas era um ótimo soldado, tratava a todos com urbanidade, não tinha como mandá-lo embora. E veio o plano subterrâneo. O mesmo tenente que deu a casa a um, arquitetou este plano: ordenou ao 2º tenente que perseguisse o catarinense até que ele se irritasse. Camilla, O 1º tenente queria provar que o marinheiro catarinense tinha varíola no coração. Que era um rebelde para ter motivos de o expulsar da Marinha. O 2º tenente foi perfeito. Tanta foi a perseguição, por coisas nem acontecidas, que o manso catarinense, sem entender a armadilha, e se o avisássemos iríamos juntos com ele para a rua, agiu conforme o esperado. Agrediu o 2º tenente. Varíola no coração! Não pode ficar na Marinha.

Veja Camilla, para o marinheiro que comprou a casa, o 1º tenente foi muito bom, um anjo, mas para o marinheiro catarinense esse mesmo 1º tenente foi o diabo. Deixo aqui o meu abraço de primeirona, desejando mesa de Natal de primeirona para você e todos os tricolores em festa. Afinal, fui tricolor de coração.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A CRÔNICA DO BARBOSA

Há pessoas cujas vidas mudam quando ganham na Mega-Sena; aceitam Cristo como salvador ou roubam um carro-forte e logo em seguida aceitam Cristo como salvador. Nesse último caso, mudam inclusive as vidas de alguns pastores que mudaram tanto nesses últimos tempos, que já aceitam como ofertas e dízimos, cordeiros mancos, aleijados, caolhos. Malaquias é um livro fora de moda.

A minha vida mudou por causa do Barbosa. Acontecimento da minha infância na Vila Tiradentes. Sim... Acho que foi por causa do Barbosa. É tanta a distância... Sempre pesou sobre mim a acusação de querer ser diferente nos cabelos, quando os tinha; nos tênis, nas idéias. Mãe, pai, madrasta, primos, todos me acusavam e eu ficava pelos cantos, por conta da autofagia, isto é, o diferente sempre é eliminado, já se sabe: Dionísio e Cristo foram eliminados. Graças a Deus não tenho mais esse problema. Aderi e veio a metamorfose. Estou perfeitamente integrado. Hoje sou chamado de imitador de Carlos Drummond de Andrade; de escrever à moda de Montaigne; plagiatário de Machado de Assis. E não é só Machado, não. No salmo 68:6 está escrito que Deus faz que o solitário viva em família. Tenho família, mas sou como Cristo: não tenho família real; minha família é ficcional. Sou uma existência com raiz.

Mas a mudança começou na sala de aula quando a professora perguntou:

- Quem foi o mártir da dependência do Brasil...

- Delfim Neto. Todos acertaram.

- E quem foi o mártir da Independência?!

Todos disseram Tiradentes, menos eu, que saí com um Barbosa. A professora caminhou em minha direção repetindo a pergunta com as palavras lhe arranhando a garganta, auxiliadas por uns olhos esbugalhando em círculos concêntricos e eu confirmando, Barbosa! Barbosa! Barbosa! Toda mãe começa assim para mostrar aos seus filhos que não estão gostando de uma determinada coisa. Primeiro elas usam as palavras arranhando na garganta, auxiliadas pelos olhos arregalados. Parecem que vão saltar das órbitas. Depois, com o tempo, basta um arregalar de olhos. É muito das mulheres conversarem pelos os olhos. Madrasta, pra quê esses olhos tão grandes?! Diminua esses olhos! Você fica horrível, Loba má!

Diante da teimosia, mandou chamar meus pais que já chegaram batendo lá mesmo no Grupo Escolar. Grupo Escolar... Quanto tempo! Fala direito menino! E eu: Barbosa! Pedro negou Cristo, mas eu não nego o Barbosa. Eu parecia um Pedro convertido, apanhando por causa do nome de Jesus. Quanto mais batiam, mais eu falava Barbosa. Ah esse pai da Taninha! Tive aos 7 anos um interrogatório de Ditadura. Pelado, no frio, luz na cara e apanhando e não apareceu nenhum Gamaliel para dar um parecer e me salvar. Toma Diabo! Se o filho é diabo, o pai então... Fui levado a uma rezadeira, mas o Barbosa resistiu a todas as rezas. Mudaram o método. Essa coisa de usar o corpo alheio é muito cômoda, deram uma surra de espada de São Jorge no Barbosa, mas quem acabou roxo fui eu. Levaram-me a uma Assembléia de Deus, mas o demônio Barbosa não saiu. Quem foi o mártir da Independência, demônio?! Barbosa, já disse, pastor analfabeto! Parece que não estudou! Isso aí não é um demônio só, não, irmãos! Isso é uma casta. É a casta dos Barbosas! Isso é uma legião barbosense, uma legião romana tinha uns 6 mil soldados, podem contar que tem uns 6 mil Barbosas aí dentro desse garoto e só sai com jejum e oração e uma boa oferta de no mínimo 200. Menos essa legião não sai! Se vierem com 199,99 a legião não sai. A benção é de 200 para cima. Aceitamos cheque.

Meu caso de Barbosa foi parar na rádio e a astróloga Zora Yonara respondeu, no ar, a cartinha da madrasta, escrita por mão de vizinhos: Madrasta Desesperada de Vila Tiradentes, o caso do seu enteado é grave. Talvez ele esteja confundindo. De fato existiu no tempo de Tiradentes, um Barbosa, Domingos Vidal de Barbosa que teve a pena de morte comutada em degredo perpétuo, em 1792, na ilha de Santiago, na África. Você diz em sua carta que seu enteado é do signo de peixes, mas esse não é o problema. Possivelmente a questão está no ascendente em touro, que só deveria começar a atuar nesse menino, depois dos trinta, mas são coisas dos planetas. Os taurinos são assim, teimosos, mesmo sabendo que estão errados. Quer um conselho de amiga? Comece a dizer pela Vila que seu enteado é poeta e logo, logo o povo vai compreender e acostumar com o Barbosa, pois de médico, poeta e louco quem não tem um pouco? Beijos querida! E sucesso com o seu enteado!

Por orientação da professora, meus pais me proibiram de ouvir a Zora e ver até o programa do Chacrinha, o Abelardo Barbosa. E só agora vejo, foram duas maldades boas na minha vida.

Esse tipo de conversa costuma ir longe: Agora vê! Que menino burro! Dizer que o mártir da Independência foi esse tal de Barbosa! Chegou a São Paulo. Mas a conversa primeiro passou pela prefeitura da cidade e logo apareceu lá em casa um homem de olhos arregalados, chamado Barbosa, um sujeito barbono, parecendo o Adamastor de Camões, implorando ao meu pai que me fizesse calar a boca. Era um Barbosa que estava dando a independência a todos os que não tinham casa própria no morro da Caixa D’Água. Fazia um serviço de mártir, sofrendo para inserir os nomes dos novos independentes no lugar dos nomes dos antigos e verdadeiros proprietários a preços módicos. Houve festa da Independência no morro com todo mundo exibindo seus nomes nos carnês de impostos. Cogitaram de mudar o nome de morro da Caixa D’água para morro do Barbosa. Só hoje tendo conhecimento da Ciência Jurídica é que descobri... Ninguém se tornou independente coisa nenhuma. O que o Barbosa falava sobre independência eram barboseiras, isto é, baboseiras específicas do Barbosa. Respeitem seus direitos autorais. Só o nosso nome no RI (Registro de Imóveis) é que proclama a independência de um imóvel. Nome no carnê da prefeitura não dá propriedade a ninguém, daí os olhos arregalados daquele Barbosa. Cadê o pai da Taninha?!

A conversa chegou a São Paulo, cidade de Barbosa. Provavelmente caminhoneiros. De lá veio um convite em meu nome para que eu fosse receber o Título de Cidadão Barbosense, indicado pelo sugestivo vereador Barbosa. Meu pai e minha madrasta cada um de um lado me levaram até os correios suspenso pelas orelhas e aquela gostosa sensação de estar voando que toda a criança tem, ficou prejudicada pela sensação de dor nas orelhas.

Das duas orelhas a que mais doeu foi a que viajou nas unhas da madrasta. Tinha a mão lisa, cheirosa, cremosa e, no entanto, foi a que mais feriu. Acho que esperei demais da madrasta. Uma grande substituta para a mãe. Fez pior. Acho que esperei demais das mulheres. Não tive sorte com as orelhas. A mãe me pegava pela orelha; a madrasta idem e com as unhas; a amiga sangrou a orelha da amizade; a mulher que amei cravava as unhas na orelha do meu coração. E quase fiquei surdo para o amor. Para todos os amores. Vários psicólogos vieram tentando me salvar por um preço que um inglês diria: is a steal! Mas o que me salvou mesmo foi o meu velho cotonete da Johnson & Johnson por apenas R$1,75.

Nos correios me fizeram escrever que eu não iria a Barbosa receber porcaria de Título nenhum. Se ao menos fosse um título de capitalização! Resmungos da madrasta. Mas como meu pai e madrasta não sabiam ler, escrevi educadamente que não poderia ir a Barbosa receber o Título de Cidadão Barbosense porque não tinha barba; e minha família toda havia morrido num naufrágio de barca, na verdade foram devorados por um cardume de piranhas argentinas que vieram a turismo passar o verão na Baía de Guanabara. Perdi toda a família, ó Fluxível Excelentíssimo Barbosa! Não tenho um responsável sequer. Os responsáveis por mim agora são Machado de Assis, Voltaire, Fielding, Sterne, Rabelais, Luciano. Eis a minha família que o pai da Taninha me deu de presente de aniversário. Ih, Taninha! Teu pai não dá presente de aniversário, não! Ele dá livros! Deus faz que o solitário viva em família! É pena que uma família de mortos não tenha capacidade civil para autorizar a minha ida para Barbosa! Muito embora aqui na cidade um amigo seu de profissão, político, ex-prefeito, vereador Stélio Natário dos Santos conseguiu com que certa morta assinasse a escritura de compra e venda de um imóvel para ele. Eu pensava que só Cristo tinha o poder de ressuscitar os mortos, mas vejo que os políticos também têm esse Dom, infelizmente rejeitado pelo artigo 297 do Código Penal.

Até que enfim chegou o pai da Taninha com aqueles óculos negros e lentes grossas. Marinheiro. De guerra. Estudioso. Ele nos mostrou de novo, no livro, a Crônica do Machado de Assis, de 22 de maio de 1892, onde bem claro Tiradentes, que morreu velhinho ganhando pensão da coroa portuguesa, é rebatizado de Barbosa por D. João VI. Levamos para a professora que rápido nos tirou de sala de aula, pediu não contássemos a ninguém e ficou o ano inteiro pagando refrigerante e pão com mortadela para Taninha e eu.

Não sou oficial de justiça, serei escritor - nem que seja por usucapião - por isso o referido não é verdade e nem dou fé.

Ouriço-Cacheiro: em Legítima Defesa

Mal chegou novembro e os shoppings já estavam enfeitados para se comemorar o nascimento do Príncipe da Paz. Paz... Nessa época, não é tradicional branco que prevalece. A nossa Paz enfeitada com uma coroa de espinhos é vermelha.

Ô novembro espinhoso. Do púlpito de uma igreja, um pastor me enfeitou com uma coroa de espinhos me chamando de ouriço-cacheiro. Um dos membros, amigo meu e ingênuo, foi perguntar por que ouriço-cacheiro e a resposta foi óbvia e aguda: - Porque larga espinho pra tudo o que é lado! Hoje, não vou garantir que a crônica fique curtinha, do tamanho de um ouriço-cacheiro, porque como disse antes, ô novembro espinhoso. Pra tudo quanto é lado, pastor? Por Cristo, não sabia disso! Que eu era universal! Obrigado! Chamar-me de ouriço-cacheiro é um elogio, é gozar gozo celestial já aqui na terra. O ouriço-cacheiro é um bichinho, manso, dócil. A rosa não tem espinhos?! Os espinhos desse ouriço não saem atrás de ninguém para atacar, são guardiões, defendem. É sempre uma resposta ao seu inimigo, a raposa. Quantas raposas enfeitadas de pastores! A crônica também tem espinhos.

Mas passemos do espinho na carne para o espinho na Terra. Vejam que os espinhos estão ficando cada vez maiores e mais modernos. Até os espinhos passam por mutações: agora são mísseis. Chegou ao Brasil o presidente russo Dmitri Medvedev. A Rússia promete enfeitar Kaliningrado com mísseis caso os EUA continuem com a idéia de enfeitar a Polônia e a República Checa com seus poderosos espinhos. Foi-se o tempo em que cercavam as propriedades com espinhos de laranja-da-terra a fim de evitar um cão salteador, um ladrão de galinhas... Agora é preciso impedir um país inteiro e só com espinhos gigantes.

Se o perigo de agressão é iminente e os EUA alegam legítima defesa em relação ao Irã e à Coréia do Norte, igualmente a Rússia alega legítima defesa em relação aos EUA. Nunca se sabe. A tentação é grande. Dizem por aqui, camarão que dorme a água leva. Pelo jeito os camarões da Rússia estão com os olhos bem arregalados para as águas dos EUA. Vladimir Putin está simples como as pombas, prudente como as serpentes. Ele é a Serpente de Cristo, o Argos da Rússia; cem olhos acesos, observando, e com protetor auricular para não ouvir a flauta de Mercúrio e adormecer, levar um míssil na cabeça e depois como é moda da bala perdida, os EUA alegarem que foi míssil perdido. Minha avó costumava dizer, rato velho vira morcego. Talvez Vladimir Putin tenha ouvido muito da sua avó KGB, essa historinha de que rato velho vira morcego. Logo Vladimir teme que os EUA, aparecendo na Europa feito manso ouriço-cacheiro, espinhento apenas para se defender do Irã e Coréia do Norte, se tornem uma raposa felpuda. É possível. Notem que nesse novembro o Paraguai está acusando o manso Brasil de ter invadido com o nosso Exército, 30 metros do território deles. Não... Não somos raposas, creio, mas se encontrares uma raposa morta na estrada arranca-lhe sete dentes sem anestesia, antes de levá-la para casa. Não... Não somos raposas, creio, mas num instante e os EUA vão parecer por aqui a oferecer mísseis para enfeitar um e outro lado. Por eles a Terra seria uma enfurecida fêmea de ouriço-cacheiro. Esqueceram dos mísseis americanos junto à Turquia? Legítima defesa em Cuba! 1960.

Mas do espinho da terra avisto um espinho no mar e não é de arraia nem de baiacu, é da Marinha: a Marinha dos EUA voltaram a usar os sonares em exercícios militares com a permissão da Suprema Corte. Pobres golfinhos e baleias. Como são perturbados. Os ambientalistas saíram em defesa deles, mas foram derrotados pelos interesses da defesa nacional.

Estou falando em legítima defesa e até agora não disse o que é. É a defesa necessária utilizada contra agressão injusta, atual ou iminente, contra direito próprio ou de terceiro com uso moderado, proporcional à agressão injusta.
De terceiro... Hummm! Já estamos na época de jaca. As jaqueiras estão enfeitadas de jacas. As jacas estão enfeitando as feiras. Aqui sai o cronista em legítima defesa de terceiro. Dos terceiros que passam pelas calçadas do Campo de Santana, no centro do Rio, com um risco iminente de uma jacada. Mais ou menos em dezembro de 2005, uma espinhenta jaca desceu do alto de uns 9 metros , ali em frente ao Corpo de Bombeiros, e atacou uma jovem de 40 anos que foi parar no Souza Aguiar. Depois do ataque é que apareceu o pessoal da “Parques e Jardins” para arrancar as espinhosas agressoras. Agora o ataque iminente é pelo lado do hospital Souza Aguiar. Cadê a Parques e Jardins”? As Jacas estão lá. Bem no alto. Hitler foi e não voltou, Napoleão foi e não voltou, mas as jacas voltam. Umas pesando uns 8 quilos. Se cair sobre um garotinho de uns oito anos não sei não... Ainda mais com a aceleração da gravidade. Cadê a Parques e Jardins? Será que teremos que abrir um concurso para Fiscal de Jacas? Com salários de 8 a 12 mil? Passou pela minha cabeça agora que a Natureza aos poucos vai se vingando de um ou outro homem com uma jaca, uma mordida, um espinho, água, fogo... E já não seria caso de vingança, mas legítima defesa.

Termino a crônica fazendo jus ao nome que me deram, ouriço-cacheiro, espetando alguém, porque domingo lendo o jornal O Dia Baixada, a matéria esportiva dizia, “Caxias rumo à Segundona”. Na segunda-feira o jornal Expresso trazia em sua capa “... Alô, Alô Segundona”, em relação ao Vasco. No futebol há outras divisões, mas as mais faladas são 3ª, 2ª e 1ª. Em ordem crescente. Assiste razão ao jornalista do Jornal O Dia Baixada quando diz: “Caxias rumo à Segundona”, mas não assiste razão ao do jornal Expresso quando diz, “Alô, Alô Segundona”, em relação ao Vasco. Eis uma questão de ponto de vista: dois são os graus do substantivo, aumentativo e diminutivo. O aumentativo e diminutivo podem ser analíticos e sintéticos. O aumentativo sintético “Segundona” formou-se com o auxílio do sufixo ONA como em mulherona. O seu diminutivo sintético correspondente seria “Segundinha”, sufixo INHA como em filhinha. Para o time do Duque de Caxias-RJ, Campinense-PB e Guarani-SP que estavam na Terceira Divisão, de fato, rumavam para a Segundona, mas para o Vasco, Fluminense, Ipatinga, Náutico, Figueirense e outros com risco de rebaixamento é “Segundinha”. Para quem não gosta de futebol será sempre “Segundinha”; para certas igrejas depende da oferta: se a oferta for boa é “Segundona”, se for pequena é “Segundinha” e ainda vão orar, amaldiçoando para cair para a Terceirinha. Se julgarem injusta a observação que saiam em legítima defesa do espetado...

Saio para beber meu chazinho de espinheira santa. Espinheira santa! Que nome contraditório! Não, não. Tudo bem que a Terra é maldita com espinhos e abrolhos por causa de Adão; mas foi bom para o Apóstolo Paulo um espinho na carne para que não se ensoberbecesse; os caprinos e camelos adoram comer a sanguissoba espinhosa; muitas janelas de apartamentos obtêm ótimos resultados em legítima defesa contra os pichadores, enfeitadas com cactos Orelha de Mickey perto delas. E nesse Natal de crise, desejo a todos uma feliz Legítima Defesa que o Estado não está nem aí!

O ouriço-cacheiro se atacado enrola-se numa bola; bola de espinhos: mata no peito, pastor! Em cima do coração.

domingo, 2 de novembro de 2008

Se o fotógrafo é fiel...


Dizem que a fotografia reproduz o real da forma mais exata possível; possível porque entre a lente e a forma há um rabo de palha... Machado de Assis viu com bons olhos a chegada da gravura aos jornais em 26 de maio de 1895. Reconheceu que as palavras não davam conta de tudo, bem ao contrário da idéia absoluta de hoje que diz: imagem é tudo. Absoluta?

Entanto, em 13 de janeiro de 1901, Olavo Bilac, substituindo Machado cronista, não viu com bons olhos essa chegada, porque chegaram demais, e desenhistas, caricaturistas, ilustradores já estavam tomando os espaços dos jornais. Ninguém estava ligando para a leitura. Eram gravuras e gravuras, fotografias e meia dúzia de palavras. Pobres cronistas! Essa ameaça estava presente no seu tempo, mas hoje há espaço para gregos, troianos, espartanos, tebanos, persas, todos.

Existiu um tempo em que Joana, Maria Betânia, Gal Costa, Elba Ramalho brilharam ao mesmo tempo e não houve problemas entre elas; mas Tom Zé e o saudoso Torquato Neto, quando se perceberam numa disputa de espaço, confessou o próprio Zé, não souberam administrar essa disputa e cada um foi para um lado. Vejam que para uns a vida, para cima, é um jardim de exuberantes flores para os olhos; para baixo, uma intensa batalha de raízes. Batalha travada até no mundo dos espíritos, no corpo de uma colega, disputavam espaço Maria Molambo e Exu Caveira. Ora a colega era homem, ora, mulher que dizia: seu filho da... Eu cheguei nesse corpo primeiro. Ri e Exu Caveira puxou o olhar e resmungou: moço, isso não é brincadeira, é uma Batalha! E continuou o combate. Já na província dos gadarenos, um homem andava com uma legião no corpo – a legião romana tinha uns 6 mil soldados – e todos estávamos muito bem. O malvado Cristo é que veio lá da outra banda do rio só pra perturbar a gente. Vivíamos em paz. Tínhamos até criado naquele corpo, a exemplo das legiões romanas, um sistema de rodízio para a chefia. Cristo veio e estragou tudo. Malvado Cristo! Quer tudo para Ele. Dá pra gente quando muito, uma metátese: corpos de porcos! E provisoriamente. Eis aqui a gênese do MSC (Movimento dos Sem Corpos). Entre os deuses gregos quem mais perdeu nas disputas de espaço foi Netuno. Assim como o Estado perdeu o Rio de Janeiro para o Tráfico, Netuno perdeu Corinto para o Sol; Delfos para Apolo; Argos para Juno; Egina para Júpiter; Naxos para Bacos; Atenas e Trezena para Minerva. Os deuses têm as suas decepções. Cristo perdeu para César. Não temos outro rei senão César! Perdeu até para Barrabás. Barrabás! Barrabás! Jerusalém, Jerusalém! Quantas vezes quis vos ajuntar como uma galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas...

Mas não foi a disputa de espaço que me chamou a atenção na crônica de Bilac. A perplexidade veio dessa fala: “as palavras são traidoras e a fotografia é fiel. A pena nem sempre é ajudada pela inteligência; ao passo que a máquina fotográfica funciona sempre sob a égide da soberana verdade...”. Não é verdade. Rabo de palha. Havia numa Assembléia de Deus um pastor que vivia ameaçando do púlpito. Quem tem rabo de palha cuidado comigo, porque eu piso, risco um fósforo e toco fogo! E ria! Como ria! E a igreja ria da parte A da fala dele, porém, agradava-me mais a parte B. E se eu tiver rabo de palha, podem pisar e tocar fogo! Cláudio jamais faria isso, mas eu, Lukata... Descobri logo quatro rabos de palha no pastor, pisei e toquei fogo! Rabos dos grandes. Saímos tocados da igreja, mas ele nunca mais tocou na parte A e B do rabo de palha. Agora piso no rabo de palha da fotografia. O rabo de palha da fotografia chama-se homem. Bilac viu mal. A soberania da fotografia, como a soberania de muitos países, é de palha. As palavras não são traidoras. A fotografia é fiel se o fotógrafo é fiel. As palavras são traidoras se o homem é traidor. O fotoshop não é o melhor, mas pode ser o melhor anti-ruga do planeta, depende do Web Designer. Dependendo do traidor, uma imagem pode dizer mais ou menos. Se o traidor é amigo, tira rugas, se inimigo, mesmo não as tendo, põe.

A fotografia não é fiel, pois das poucas vezes em que advoguei de um caso não me esqueço. Uma mulher teve seu imóvel deformado por um vizinho e o convidamos a ir ao juiz reparar os danos. No dia da audiência não pude estar presente. Um amigo me substituiu. Ao chegar de viagem encontrei a mulher triste. Disse que quase saiu presa da mesa do juiz. As fotos, Dr. Lukata! Advogado não é doutor. De fato as fotos no processo tinham arte. Obra prima. Verdade. Imagem é tudo. Tanto que convenceram ao juiz. A sentença sairia em breve, mas o barulho da carruagem era favorável ao adversário. As fotos tiradas à noite, de uma espécie de oitava à esquerda, oblíquas, de ladinho, eliminavam os sinais de ataque ao imóvel. Gostei. Agora eram Palavras xFotografias. Achei um oficial de justiça que se compadeceu da mulher, foi até o local, constatando os rabinhos de palha da fotografia, havia danos e lavrou aquela certidão, finalizada com o tradicional: O referido é verdade e dou fé. As palavras ganharam das fotografias nas 1ª e 2ª instâncias.

Outra foto infiel pode ser vista na página VII do livro Antologia II, 2004, da ALAM (Academia de Letras e Artes de São João de Meriti), onde o professor de história, Gênesis Torres, aparece numa fotomontagem ao lado do professor Moysés Henrique dos Santos e Maria das Graças G. Neves. Na foto original ele não aparece. Só depois do adultério é que surge o imponente professor, ferindo a história da Academia de Letras. Agora, Gênesis Torres além de ser professor de história, é poeta da fotografia. Seja bem-vindo: A Arte é o mundo dos adúlteros. Por ser crônica, não dá para colocar aqui as fotos, mas creio, bastam palavras para dizer:

- Ora, Bilac! Perdeste o senso? Perdão do trocadilho, mas contra fotos há argumentos.

*Crônica publicada no jornal Hoje-Diário da Baixada Fluminense-RJ, em 30 de outubro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

VOTAR AO ENTARDECER



O impacto da crise financeira internacional atingiu o preço da farinha e do pãozinho e agora está atingindo a crônica.


Antes minha mão escrevia de 45 a 50 linhas, depois da crise, trinta, trinta e cinco, porque estando o pãozinho mais caro, eu como menos, vejo menos, penso menos, escrevo menos, embora seja da alma da crônica a economia de palavras.


Comendo menos e querendo continuar a comer a mesma coisa mudei a hora do almoço, almoço mais tarde, quando o preço cai para R$0,69. Descobri esse preço andando de mãos dadas com a crise, entrando, como de costume pela Rua da Bolsa de Valores, Rua do Mercado a ziguezaguear ali por dentro, atravessando a Travessa do Comércio para atingir o Centro Cultural Banco do Brasil. Haver restaurantes com placas de almoço nas calçadas por lá é natural, estratégico.
Foi uma dessas placas de almoço exposta na calçada que me fez lembrar o entardecer. Nela estava escrito: 100 gramas → R$ 1,30; após às 14:00 H, 100 gramas → R$0,90; após às 15:00 H, 100 gramas → R$0,69.


Com uma placa dessas não é difícil imaginar uma conversa numa daquelas salas de escritório nos sobrados:


- Você vai almoçar agora?!


- Não, não! Não estou com fome! Gosto de almoçar tarde, bem tarde porque amo o entardecer.
À feira também há muitas mulheres que gostam de comprar à tarde, bem tarde porque amam o entardecer. Já na feira de meninas o entardecer é na segunda-feira e aí os homens correm a comprar os melões, melancias, coxas e batatas de pernas por R$0,69. Veja, comprando milho se descobrem essas coisas. Comprava milho e um dos compradores foi abordado por uma dessas meninas e a dica do entardecer veio na boca do vendedor de milho:


- Hoje é segunda, é fraco! A Crise! Dá um milho que ela vai! E me veio um verso duro, mas um verso: 100 gramas de menina ao entardecer. Uma Vênus de Milho chama o trocadilho.


Olhando esses três casos, dos restaurantes, da feira e da feira de meninas, parece que ao entardecer tudo fica mais barato. Não, não. O vinho entardecido não é mais barato; o voto entardecido não é mais barato, porque enquanto na feira de domingo uma alface começava com o preço lá em cima e à tarde ia caindo; paralelamente na feira de voto dessas eleições, o voto começou com R$30; após o meio dia, R$40; após às 15:00H, R$70.


Logo é de se esperar para as próximas feiras de voto, que esses feirantes votem sempre ao entardecer. Até os aposentados com mais de setenta estão se preparando e não querem deixar de votar, ninguém sabe a trajetória do dólar!


- R$70 ou R$80 é mais um que vai entrar – dizem eles- para ajudar na compra do pãozinho.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

PASTOR OVERNIGHT X MENDIGO AZUL

Esse ano a palavra inflação voltou a rondar os jornais. Em 2007 rondou em forma de memória, quando um jornal publicou matéria, falando dos tempos da inflação galopante. Quase todo sábado, tempo do Sarney, os preços das passagens de ônibus aumentavam. Eu era gerente em Caxias e não tirava a maquininha de remarcação do bolso. Tempo do Overnight, tempo de escuridade e aplicações.

Overnight...Quem tinha boa soma em dinheiro e aplicasse no popular Over, no outro dia estava bem. Lembro que o intendente do navio, em que fui marinheiro, investia no Over. Investia o dinheiro do pagamento da tripulação, mas ninguém reclamava da ética do tenente, um ateu convicto, porque o lucro era revertido para o navio com festas de porto em porto, convidando-se belas mulheres. Quem iria reclamar com aquelas Vênus a bordo?! É bem verdade que nessas pescarias vinham alguns baiacus, miquimbas, mas no geral, ninguém ficava sem pescar. A Marinha depositava o pagamento no dia 19, mas o navio, por conta das Vênus, só pagava no dia 23...Variava.

Porém, a aplicação mais interessante desse tempo overnightiano não era feita no mar, mas em terra. O aplicador era um pastor de Vila Tiradentes. Digamos que seu nome era pastor Overnight. Aplicava no over os dízimos e ofertas e até aí não pesava, mas os órfãos, as viúvas, como está prescrito no Livro Sagrado, não viam uma pratinha de um centavo sequer, um benefício desses rendimentos. O lucro não era revertido para a igreja, transformava-se em carros zero, dos mais caros, sítio, imóveis para aluguel e ações no nome do Ministro de Deus, do pastor Overnight, cuja filha não cansava de dizer que seu pai não era otário, só dormia em hotel 4 estrelas. E aí a gente lembra da frase de caminhão: "Se tua estrela não brilha, não tente apagar a minha". Mas muitas estrelas só acendem, apagando as de muitos! Certa vez um cabo da aeronáutica e cristão veio a mim para saber se havia como ajudar uma viúva com fome e eu lhe disse que na igreja havia um quarto com comida até o teto e era só falar com o pastor Overnight. Minutos depois voltava o cabo com lágrimas nos olhos. O pastor lhe dissera a seguinte frase: "Rapaz! Fica quieto que assim sobra mais pra gente!"

Por Deus, eu já tinha ouvido falar de Ira Santa, mas Avareza Santa foi a primeira vez! E é aqui, na avareza, que lentamente feito uma ostra que se fecha, encerrando pérola, que fecho a crônica, recordando um contemporâneo do pastor Overnight, um mendigo habitante da Praça da Matriz, a Praça do cartão postal, principal de Meriti, que numa tarde, anoitecendo, em que me deslumbrava com os vários tipos de azuis que Deus pintara no céu, formando um degradê, encontrava-se parado junto à mesa de jogo dos aposentados sem dizer palavras. O mais curioso era que na terra, o mendigo também vestia um terno azul clarinho, mas a sujeira o empurrava para um azul ferrete. Parecia uma estátua suja de azul.

Observava-o da passarela, quando uma mendiga atravessou a rua cheia de salgados da padaria. Na praça os outros mendigos estenderam as mãos, porém, ela armou-se de um porrete e batia como se fosse uma palmatória.

Naquela segunda-feira muitos estavam no vermelho, mas eu estava azul de dinheiro e comprei duas grandes bolsas de pão doce, fresquinhos e também fui para a praça, mas para suavizar as porretadas. A vida empurrou-me para o mendigo azul, mas ele não me encarou. Pensei na possibilidade da surdez das almas feridas e então lhe disse que quem estava lhe oferecendo pão era alguém que entendia da fome, da dor, na carne e na alma. Virou-se para mim, e lá no fundo das grossas sobrancelhas, estavam incrustados dois olhos azuis e brilhantes como duas bolhas de sabão, prestes a se desfazer em lágrimas. Ofereci mais uma vez e ele abaixou, pegou um pão doce. Ainda curvado, insisti para que pegasse mais porque iria sobrar, repisei a oferta, mas ele foi erguendo a coluna vertebral, ereta como a de um cavalo-marinho, até ficar do meu tamanho e a alma maior do que a minha e a do pastor. Olhou-me profundamente nos olhos e disse:

- Basta um! Há muitas praças pela frente!

E ergueu o pãozinho, agradecendo ao Deus dos céus azuis.